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Crítica: espetáculo solo de João Miguel, Sob o Manto de Bispo

15 de Setembro de 2016, 23:30 , por Luiz Gonzaga das Virgens - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Sobomanto

CRÍTICA

Sob o Manto de Bipo

Por Igor Albuquerque

Revista Barril

 

Sobomanto 

Os versos das velhas cantigas entoadas pelo Bispo chegam primeiro aos ouvidos mais bem posicionados na arena do Vila. Há algumas poucas esteiras no chão, deitadas quase dentro do cenário e, mesmo sendo uma das últimas pessoas a conseguir o tão disputado ingresso, ainda é possível sentar ali. Será vergonha, medo ou amor à cadeira a razão daqueles lugares privilegiados estarem vazios?

“Passarinho tá chamando, Passarinho tá chamando.” Aos poucos surgem as palavras cantadas que terão destaque no decorrer da próxima hora e meia. São as canções apreendidas por Arthur Bispo do Rosário desde seu “aparecimento” neste planeta até seu internamento na Colônia Juliano Moreira, fase embaciada que até hoje intriga seus biógrafos. O esforço de explorar com dignidade e potência a faceta musical de Bispo compensa, pois se acaba criando uma espécie de boia abstrata, em meio ao mar revolto a ser vencido, de modo que o espectador terá onde se agarrar. A voz de João Miguel materializa os versos simples e cintilantes da música popular mais remota cuja beleza muitas vezes escapa aos ouvidos megalometropolitanos. São cantigas, ladainhas, música sacra. Um mergulho nos mistérios da cultura que a própria obra de Arthur Bispo do Rosário propõe, processo que leva à conclusão de que o olhar que divisa alta e baixa cultura só serve mesmo para revelar a estatura tacanha de quem enxerga o mundo assim.

 

Porque a lâmina da vida adulta nos corta um pedaço a cada ano que passa. Crescemos, crescemos e já não cantamos mais, paramos de desenhar; tocarmos uns nos outros então, só nos abraços protocolares, e olhe lá. Adeus, pega-pega. As construções (casinhas, fazendinhas, cidades) que outrora montávamos com madeira, lego, tecido ou pedras, são substituídas pelo planejamento de nossas carreiras e da interessantíssima vida afetiva.

 

Recriar o mundo em miniatura seria mesmo maluquice?

Bispo tinha lá seus problemas com a palavra arte: “Tão dizendo que isso que eu faço é arte, isso não é arte, é minha salvação na Terra”. Mas havia um sentimento que ele compartilhava com muitos artistas: uma certa obsessão de ordem. Ou de reordem, isto é, uma inquietação que faz o sujeito agir no sentido de reorganizar os elementos do mundo para dar-

 

Outro aspecto que diz respeito ao andamento do espetáculo é o humor. Uma das reações comuns diante do louco é o riso, um riso automático em resposta ao fascínio, mas que também forma um escudo de espinhos que fere o outro.

 

lhe novas formas. O Coletivo Bispo encena cuidadosamente a agonia que bate nas veias de Bispo e de seus pares. Os deslumbres transmitidos pelos olhos do ator ao fundo do tablado chegam em lampejos claros: “vai ser tudo plano”, ele diz em seus devaneios estético-proféticos. Isso em meio ao cenário móvel composto por objetos/instalações, que cresce a cada nova fala. Assim  o espectador vai sendo engolido pela nova harmonia desfiada através das mãos de Arthur Bispo do Rosário. Talvez a cena que mais adense esse complexo processo cênico seja o segmento no qual, emcrescendo, o artista faz sucessivos ajustes nos elementos do cenário até esgotar todo o barbante que tem para desenhar um painel vertical ao fundo.

Como é de se esperar, a dimensão filosófica explorada pelo espetáculo vem aliada à religião. “Existe três verdades, a minha verdade, a sua verdade e a verdade”. Uma das monomanias de Bispo era a “passagem”, o dia do Juízo Final, quando todos os nomes bordados em seu manto ressurgiriam para fazer-lhe companhia na eternidade. É no mínimo curioso observar que a plateia ri bastante dessas doidices, desse papo de Salvação, sendo que boa parte dos que ali estão é cristã, ou em alguma medida crê no além-túmulo. Como posso afirmar? Ora, mera questão de estatística. Um dos momentos mais divertidos da peça é quando a libido de Bispo vem amalgamada à sensualidade dos objetos, bem como à sua mística exótica: ele exibe osporta-seios e os sapatos extra-finos que coleciona; no paraíso de Bispo Nina Hagen vira Nina Hagen Maria de Jesus; Vera, Vera Fischer Maria de Jesus.

Outra de suas Marias de Jesus é Rosângela. Embora aqui a coisa não seja engraçada. Rosângela Maria Grilo Magalhães era estagiária de psicologia quando conviveu com Bispo na Colônia Juliano Moreira. Foi a mulher pela qual ele se apaixonou. O afeto nutrido pela profissional de saúde se espalha pelo teatro como névoa trágica, pois, para além da condição do esquizofrênico curvado ante a paixão inconveniente, resta a débil condição humana, sem pé de apoio para permanecer firme após a rasteira.

 

Pausa.

 

Respire, inspire.


Talvez seja escusado dizer que a respiração

correta seja fundamental para o funcionamento de todos os elementos aqui analisados, mas para sentir os poderosos arquejos de João Miguel sem se maravilhar, só mesmo sendo um espírito muito técnico. Principalmente na primeira metade do espetáculo, quando se é sugado para o redemunho do universo de Bispo, os devaneios são vociferados de maneira tão intensa – o sopro arfante, a tez rígida –, que as frequências de pele e de sangue desenfreiam – em todos. Os seres que dividem o lugar com João-Arthur habitam temporariamente outroespaço.

Outro aspecto que diz respeito ao andamento do espetáculo é o humor. Uma das reações comuns diante do louco é o riso, um riso automático em resposta ao fascínio, mas que também forma um escudo de espinhos que fere o outro. Não pretendo ser profundo a esse respeito, entendam comum como construção social preconceituosa e problemática que precisa ser revista. No entanto, todos nós já rimos do doidinho da rua, e continuamos a rir quando ouvimos loucuras. Justamente nesse terreno movediço, o texto de Bispo (escrito por Edgar Navarro) reelabora criticamente os dispositivos da comédia, através de frases irreverentes e repetições (“O sujeito quando é meu...”, “Eta, pau”) seguidas de reprimendas (“Muito riso, pouco siso”). Tudo muito rapidamente, como se fosse o jogo de se olhar no espelho alternando humores via expressões faciais. Desse modo, os monólogos cômicos emulam a célula rítmica dos pentâmetros iâmbicos: a batida fraca é o riso, a forte, o baque reflexivo. Nada de gargalhada solta.

 

O final a la Fellini eu me recuso a descrever. Deixo a lacuna para ser completada por quem ainda puder ir a “Bispo”. Antes da passagem.

 


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